2002: DE PEDALINHO NO VELHO CHICO

wfoto pagina sao francisco“Dói ver a tristeza estampada nos olhos do barranqueiro, quando lembra com saudades do Velho Chico.” (Zé do Pedal)

O lamentável resultado do projeto “1987 Nordeste” levou Zé do Pedal a “dar um tempo” em seus projetos. E somente 15 anos depois retomou com um projeto audacioso: uma viagem em um barco a pedal, desde a cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, até o Rio de Janeiro, Brasil.

Antes da grande viagem, uma visita ecológica e sentimental, de Três Maria a Piaçabuçu. Para fazer o lançamento e promover o projeto, Zé do Pedal resolveu percorrer o rio São Francisco em uma pequena embarcação. Partindo em 22 de março de 2002 (Dia Mundial das Águas), da cidade de Três Marias, para uma viagem até Piaçabuçu (Alagoas) no Oceano Atlântico.

A viagem foi realizada em um barco tipo pedalinho, doado pela empresa Playbalsa, percorrendo o rio até sua foz. “Escolhi o Rio São Francisco porque ele é um rio místico, e conta muito do sonho brasileiro, é uma beleza que se renova a cada dia com sua beleza e mistério”, diz Zé. “Foi emocionante viver aquele momento no Velho Chico, e tentar mostrar ao Brasil um rio diferente. Um rio que luta para manter viva as tradições e os sonhos daqueles que depositaram nele toda a sua esperança de um amanhã melhor”. O rio São Francisco nasce a 1285 metros de altitude, na Serra da Canastra, município de São Roque de minas. Serpenteando percorre Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe até a chegar ao mar. Durante seu percurso, atravessa o semi-árido nordestino tornando-se um fator fundamental para a economia da região, ao permitir intensa atividade agrícola em suas margens, além de oferecer condições para irrigação artificial em áreas mais distantes.

DEGRADAÇÃO

Lamentavelmente, nem tudo são flores no caminho do Velho Chico. “Um dos grandes problemas é o lixo e os esgotos que são jogados no rio sem qualquer tratamento, o que vem comprometendo a qualidade das águas”. Dez por cento da população brasileira, dependem diretamente das águas do Velho Chico e de seus afluentes. É uma situação deplorável, pois a quase totalidade das cidades banhadas por suas águas não tem estação de tratamento de esgoto. Mais que um absurdo, é uma berrante agressão ao meio ambiente e um desrespeito aos seres humanos. Milhares de sacos plásticos, latas garrafas pet, pneus usados, televisores e tanquinhos de lavar roupas descem o rio, diariamente como informa Zé do Pedal, um dos maiores poluidores do São Francisco, é o Rio das Velhas, seu principal afluente. As constantes agressões, como o intenso desmatamento nas margens, desmoronamento de barrancos e poluição por coliformes fecais e metais (cádmio, mercúrio, zinco, chumbo, etc.) fazem com que o rio sofra os efeitos de constante processo de degradação. Outro grande problema é o assoreamento. “Às vezes encalhava em um banco de areia, a 200 metros das margens”. 100 dias depois Zé do Pedal era recebido na cidade de Piaçabuçu, á apenas 13 km, da foz, pelo secretário local de Turismo, Orlando Emiel Steylaerts. Piaçabuçu é a última cidade que o Velho Chico visita, ao longo do seu curso, antes de dizer adeus ao sertão e se jogar ao mar, num dos espetáculos mais belos de se apreciar.

Durante a viagem, relembra Zé do Pedal, recebeu muito apoio dos barranqueiros que habitam a margem do grande rio, o que foi fundamental para o sucesso da viagem. “Geralmente á noite parava para dormir em alguma ilha ou na casa de um barranqueiro, ocasião em que aproveitava para aprender mais sobre a vida na beira do Velho Chico”. Ele revela que, nas conversas sobre o rio, os olhos dos barranqueiros enchiam de lágrimas. “E dói, dói ver a tristeza estampada nos olhos do barranqueiro, quando lembra com saudades do Velho Chico. Quando lembra dos áureos tempos, das grandes quantidades de peixes, da fartura das roças”. Talvez o momento mais marcante da viagem tenha sido quando da chegada em Pirapora, onde encontrei “seu Coló”, que disse: “Olha menino, eu vi quando o Guimarães (o vapor) subiu o rio pela última vez, mas tenho certeza, que não o verei descer mais. O rio está seco”.

O aventureiro Zé do Pedal, tem motivos de sobra para sorrir, quando fala da última etapa de sua viagem: “É uma região muito bela, com um dos cânions mais belos do mundo, localizado nas divisas da Bahia com Pernambuco e de Alagoas com Sergipe. Somando se a isso a riqueza histórica e cultural dos lugares por onde passei, como a Furna do Morcego, uma gruta encravada em uma das paredes do cânion. Fica nas proximidades da cidade baiana de Paulo Afonso e ali se escondiam o cangaceiro Lampião e seu bando. Outro ponto de destaque é a gruta de Angicos, onde, em 1938, Lampião e 10 companheiros foram mortos, tendo suas cabeças cortadas e expostas em diversas cidades”. Nesse grande roteiro cultural está Penedo, em Alagoas, uma das primeiras cidades surgida ás margens do Velho Chico. O rio, descoberto em 4 de Outubro de 1501, pelo navegante Américo Vespúcio, traz em suas margens muitas historias, que precisa ser resgatada urgentemente pelo poder público, pois o Brasil corre o risco de perder importante parte deste acervo.

Lamentavelmente, grandes monumentos estão em completo abandono e alguns até correm o risco de desabar. São mais de 5 séculos de historia abandonada.

O BARQUINHO.

O pedalinho usado na viagem media 2,40m por 1,20m e pesava 117 kilos. Foi cedido pela empresa carioca Playbalsa (www.playbalsa.com.br). Para a viagem Zé do Pedal contou com o apoio das seguintes empresas e pessoas: Vurk Desing, Playbalsa, Transportes Eureka, Number One Instituto de Idiomas, José Américo Garcia, Caminho das Pedras, vereadora Carmem Mendes, Buynet e Sebastião Dini. Zé do Pedal batizou o pedalinho de “Sir Blake”. Uma homenagem póstuma ao navegador neozelandês, Sir Blake, que havia partido de Aukland, em Novembro de 2000, a bordo do veleiro “Seamaster”. Ele tinha um objetivo de educar a população nos quatro cantos do mundo sobre a importância da proteção ao meio ambiente, ajudando assim a proteger as águas do planeta e outros ecossistemas. Sua viagem era parte de um projeto de exploração, organizando expedições a áreas estratégicas do Planeta, como a Antártida, o Ártico e grandes rios, como Nilo e o Amazonas.

Peter Blake dizia, “Se a água é boa, a vida é boa, se há pouca água há pouca vida, Sem água não há vida”. Ele não pode continuar seu sonho de ver um mundo melhor para todos, morreu assassinado covardemente, a tiros quando seu barco (um dos veleiros mais sofisticado do mundo) estava ancorado na praia da Fazendinha, a 17 km de Macapá. Foi invadido por assaltantes que queriam roubar um bote inflável, relógios e um motor de popa. A tripulação reagiu ao assalto e Peter morreu aos 53 anos, com dois tiros nas costas. Peter havia acabado uma importante etapa de seu projeto, a Amazônia. Na manha seguinte ao fatídico cinco de dezembro de 2001, zarparia rumo a Venezuela.